Marcio Motta

No dia em que comemora-se oficialmente a Mata Atlântica, duas notícias trazem ao debate o futuro do bioma e das espécies que o compõe. A primeira diz respeito à diminuição de 9% da taxa de desmatamento entre 2017 e 2018, menor valor desde que a série histórica teve início, em 1985. Embora alguns estados – Ceará, Paraíba e São Paulo) – conseguiram manter valores abaixo de 100 hectares de área desmatada (o que é considerado “desmatamento zero”), outros como Minas Gerais, estado que possui a maior extensão de Mata Atlântica, destruiu 3.379 ha, seguido do Paraná, com 2.049 ha.

Mesmo com a atuação expressiva da Fundação SOS Mata Atlântica e do INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a discrepância entre os resultados dos estados mostra como as políticas públicas de conservação ainda são fragmentadas e refletem interesses específicos, especialmente do agronegócio, da mineração e da especulação imobiliária, o que traz consequências desastrosas para a vida do bioma e nos leva à segunda notícia: segundo a WWF, World Wide Fund, organização que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental, restam cerca de 300 indivíduos de onça-pintada (Panthera onca) na Mata Atlântica.

Neste caso, não é complicado entender a relação entre causa e efeito. Destruir 3.379 ha de floresta significa que os organismos que ali vivem ou morrerão durante o processo ou se deslocarão para áreas próximas. No caso da onça-pintada, onde apenas um indivíduo pode precisar de 70 km2 para viver, o impacto dessa destruição aumenta e a população consequentemente diminui.

O futuro de espécies como a onça é incerto, principalmente se as taxas de desmatamento não diminuírem aos números esperados. Alguns estados brasileiros já estão fazendo a sua parte e podem servir de modelo para os demais e instituições como a SOS Mata Atlântica e WWF promovem estratégias de conservação de espécies ameaçadas, mas principalmente iniciativas amplas para pressionar o poder público a cumprir a legislação ambiental, como a própria Lei da Mata Atlântica, de 2006, sancionada pelo Presidente Lula. O movimento poderia ganhar força se o cidadão entrasse no processo, seja através da participação ativa em conselhos municipais e estaduais de meio ambiente, como também pressionando o executivo e o legislativo para que a lei seja cumprida e as áreas naturais, protegidas, tivessem seus ciclos biogeoquímicos preservados e o processo de seleção natural em pleno funcionamento.

Para saber mais:

Diante da notícia sobre as onças, o WWF a escolheu para a série de podcasts chamada de Barulho da Onça, programas do WWF-Brasil (Fundo Mundial para a Natureza) que estreiam nesta segunda-feira, 27 de maio. Os programas, de caráter educativo, buscam sensibilizar e conscientizar sobre os riscos a que o felídeo está exposto. Ao longo de cinco meses, dez programas serão lançados quinzenalmente e abordarão as peculiaridades da onça-pintada, seu habitat e relações com o bioma. Os produtores do programa vão responder dúvidas dos ouvintes no quadro chamado Esturra. As perguntas poderão ser enviadas para o e-mail barulhodaonca@wwf.org.br ou para o Whatsapp (11) 97266-8310. O primeiro entrevistado será Ronaldo Morato, coordenador do CENAP – Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros

Marcio Motta é biólogo e colaborador do ECOinforme